quarta-feira, 3 de julho de 2013

O problema é moral e não econômico






Sobre as crescentes ondas de manifestações no Brasil, transcrevemos trechos de uma reunião do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, feita em 1994, a respeito da corrupção política e do favorecimento ao caos, indicando a única solução de fundo.
* * *
Corrupção na sociedade atual: haverá solução?

 Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo, N° 518, Fevereiro de 1994 (*)

Na Itália e França, políticos suspeitos de suborno e malversação de dinheiro público se auto-anistiam. Tal epidemia de imoralidade representa séria ameaça ao que resta de civilização cristã e à própria existência do Estado, favorecendo o estabelecimento do caos. Nossa Senhora, em Fátima, já indicara o remédio para essa situação.
*      *      *
Recentemente, na Itália, escândalos sem precedentes fizeram com que o Parlamento votasse uma lei que extingue as penas de prisão aplicadas a políticos, condenados por receber contribuições ilegais destinadas a campanhas eleitorais. Ela foi aprovada no Senado por 139 contra 19, depois de ter sido votada pela Câmara de Deputados em novembro último. Tal legislação estabelece que contribuições ilegais para campanhas políticas não constituem crime, tornando-se apenas “ofensa civil”. Dessa forma, os condenados não serão mais presos, devendo tão-só pagar multas.

“A votação no Senado foi uma das poucas demonstrações de unidade da Câmara Alta do Parlamento da Itália” (cfr. “Folha de S. Paulo”, 3-12-93). Comunistas e autonomistas da Liga do Norte juntaram-se aos integrantes dos partidos envolvidos nos escândalos de corrupção para a aprovação da lei. “Até hoje, políticos que recebessem contribuições ilegais para campanhas eleitorais poderiam ser condenados até a quatro anos de cadeia. A maioria dos políticos italianos acusados nos recentes escândalos de corrupção – entre eles cinco ex-primeiros-ministros – são suspeitos de terem recebido doações ilegais para suas campanhas eleitorais.

“Segundo o Comitê Judiciário do Senado, as contribuições políticas deixam de ser ilegais, desde que voltadas exclusivamente para o financiamento de campanhas eleitorais. A nova lei é retroativa se beneficiar os réus” (id. ib.).

É lícito financiar candidatos?

Em princípio, pode-se censurar um homem rico, um empresário, que pague uma soma importante para eleger determinado político, defensor de ideias semelhantes às suas?
Daria provas de ser muito sovina um homem que, podendo facilitar, mediante contribuições financeiras, o acesso a cargo público importante a um candidato que apresente um programa capaz de salvar o seu país, não o fizesse.
Em tese, o fato de uma pessoa rica fazer uma doação para a eleição de outra sem posses, não é, em si, ato desonesto. Pode até ser considerado um ato de virtude.
Acordo escuso
Ora, a situação muda de figura quando se observa não ser por afinidade ideológica que determinado empresário ou banqueiro apoia um candidato, por exemplo, à Presidência da República. Se ele financia tal político porque houve um acordo, no sentido de este lhe conceder vantagens na realização de seus negócios, recebendo em compensação pelo dinheiro doado, um contrato comercial vantajoso, a combinação torna-se espúria. E isso implica, muitas vezes, que será contratada para a realização de uma obra pública não a empresa mais eficiente, mas o empresário que facilitou o candidato a obter o cargo público. Um acordo desse tipo transforma um ato de idealismo em negociata, e começa assim a aparecer o lado escuso e espúrio da combinação.
Além disso, o empresário pode cobrar do Estado um preço muito maior do que cobraria outro concorrente que não auxiliou a eleição do candidato. Este ato assume, pois, caráter irrecusavelmente desonesto, porque o empresário cobraria um preço desproporcional pelo serviço prestado.
Corrupção e sistema de governo
Consideradas as coisas em tese, pode-se dizer que este gênero de falseamento da democracia é optativo. Isto é, se as pessoas que entram nesse jogo o quiserem, podem assumir a atitude descrita acima, prejudicando singularmente o Estado e os interesses públicos. Se não o quiserem, contudo, podem agir honestamente. Assim, não se infere daí um argumento contra a forma de governo, nem contra o sistema econômico capitalista. Dessa situação extrai-se apenas uma razão contra o falseamento da forma democrática de governo. Falseamento que pode ocorrer também em outros tipos de governo.
Do ut des; facio ut facias
As considerações precedentes são variações maiores ou menores de um mesmo pensamento central, que se poderia descrever em torno da máxima do Direito Romano: Do ut des; facio ut facias (dou para que tu me dês; faço para que me faças). É uma combinação, um arranjo que pode ser feito de modo desonesto ou honesto, conforme entendimento das partes engajadas no negócio.
O falseamento pode facilmente se dar em qualquer forma de governo vigente no momento, seja democracia, seja monarquia. E também ocorrer tanto no sistema econômico capitalista quanto no comunista. Lembremos que no comunismo os membros do partido – especialmente a cúpula, como a nomenklatura na ex-URSS – constituem uma casta, que obtém todas as vantagens. Isto que já era sabido, tornou-se patente após a queda do Muro de Berlim.

Grau de moralidade pública

O eixo da problemática não se encontra primordialmente, pois, na forma de governo nem no sistema econômico. Ele reside no grau de moralidade públicae, em particular, no comportamento dos homens públicos, numa ou noutra forma de governo, num ou noutro sistema econômico. Onde há pessoas que tomam a sério a existência de Deus, e cumprem, de fato, Sua Lei, tais coisas não acontecem.
Mas, em países onde a população crê na existência de Deus sem seriedade, ou cumpre a sua Lei também de modo não sério, certo número de pessoas pode roubar, beneficiando-se de bens que não são seus.
Não estamos, portanto, em presença de uma questão principalmente econômica, embora tenha algo de econômico; nem tampouco em face de uma questão principalmente política, se bem que tenha algo de político. Estamos diante de uma temática que, apesar de conter reflexos econômicos e políticos, é fundamentalmente religiosa e moral. Onde não há religião nem moral, onde há aniquilamento do valor religioso, da Fé, as coisas necessariamente caminham rumo ao esboroamento completo de toda a ordem econômica, política e social.

E a repressão ao roubo?

É claro que se deve reprimir de modo categórico toda espécie de ilegalidade e de imoralidade. Entretanto, simplesmente punindo os ladrões, nunca se chegará à eliminação do roubo. Porque o número de ladrões tende a crescer, a bem dizer indefinidamente, num país em que a maioria esmagadora da população não cumpre os Dez Mandamentos da Lei de Deus. Caso se prendam cinco ladrões, engana-se quem considerar que seu número diminuiu em cinco. Foram abertas, na verdade, cinco vagas, e para elas surgem cinqüenta candidatos, isto é, cinqüenta novos ladrões. E crescendo o número de ladrões, aumentam os roubos.
O problema é fundamentalmente moral e, a esse título, envolve também um problema religioso.

A ingerência do Estado

As crescentes restrições impostas à propriedade privada conduzem atualmente a uma situação em que, para seu exercício pleno, ela depende de autorização do Estado, segundo a legislação semi-comunista de tantas nações modernas ditas não-comunistas. Dessa forma, por exemplo, a exploração de alguns bens no subsolo – que legitimamente pertencem ao proprietário do solo – só pode se dar com permissão do Estado. Para obtê-la, uma pessoa honesta freqüentemente tem que oferecer um suborno ao funcionário encarregado da autorização, seja para consegui-la ou para que não demore indefinidamente. Quem assim procede, agiu erradamente?
Não. Ele deu dinheiro para obter um direito que legitimamente já era seu. Mais ainda, é o Estado que rouba, ao limitar assim o direito de propriedade injustamente. As irregularidades daí decorrentes criam na máquina política subornos de toda espécie.
Tal procedimento se espalha pela população inteira. Quem paga suborno é tido como pessoa esperta, e quem não o faz, passa por bobo. O esperto ganha dinheiro. O que não suborna fica com um bem que não lhe adianta de nada. Essa é a conseqüência forçosa da ingerência desmesurada do Estado na economia.

Oficialização do roubo

Se até os honestos são obrigados a subornar, que se dirá dos desonestos? O suborno se espalha como uma mancha de azeite sobre um tecido, penetrando em toda a sua contextura.
Em certo momento, quando o número de ladrões torna-se tão grande que é praticamente impossível reprimir o crime sem pôr a nação inteira no cárcere, adota-se a fórmula italiana: declara-se não ser crime o suborno, o qual passa a ser punido apenas mediante multa. Na verdade, duas multas. Uma para o funcionário, outra para o Estado. E a pessoa fica livre para fazer o que quiser. É a oficialização do roubo.
Assim sendo, um vulgar ladrão de galinhas pode ser punido com prisão. Um político, porém, que entra numa negociata eleitoral, não fica desmoralizado e não vai para a prisão. Deve apenas pagar uma multa. E como ele recebe também algum dinheiro, tudo se arranja. Todos ganham dinheiro, todos roubam e o roubo torna-se um costume oficial.

Fim da propriedade privada

Quando se oficializa dessa maneira o roubo, a propriedade privada acaba deixando de existir. Se o roubo se generaliza, multiplica-se não apenas a obtenção de vantagens em negócios públicos, mas todos os negócios tendem a se tornar velhacaria.
Em tal situação, o trabalho perde prestígio e influência, restando apenas como meio de ganhar dinheiro a prática desonesta. O roubo torna-se o rei da sociedade. E o sistema econômico, comunista ou capitalista, afunda na prática do suborno. O país torna-se uma “roubolândia”, onde uma minoria de ladrões se locupleta no poder.

A meta é o caos

Esse desfazimento da sociedade conduz a uma adulteração da polêmica comunismo-anticomunismo. Isto é, os comunistas dizem que no regime capitalista o roubo se generaliza. Entretanto, a situação dos países do Leste europeu mostra que, no regime comunista, o roubo e o suborno, na realidade, se instalam de modo generalizado. E as acusações recíprocas de ladrões deixam de ter sentido. E o mundo mergulha na anarquia e no caos.
Caminha-se então para uma ordem de coisas em que a discussão capitalismo-comunismo perde sua razão de ser. Nada é mais nada! Comunismo equivale a capitalismo; capitalismo é comunismo. Todos tornaram-se ladrões e ninguém deixa de ser ladrão, exceto alguns poucos que ainda crêem em Deus.
Essa é a conseqüência da lei recentemente aprovada na Itália. É o primeiro passo para a generalização de um sistema legal mais ou menos parecido como o descrito acima e que atingirá, cedo ou tarde, todas as nações do mundo. Aliás, é o que já ocorreu na França, durante o governo socialista do presidente Mitterrand. Comprovou-se uma corrupção praticada pelo Partido Socialista, e como este possuía, na ocasião, maioria na Câmara de Deputados, votou-se uma lei de auto-anistia. O resultado: perda total da moralidade pública, da compostura política e caminho rumo ao caos.

Que remédio há para isto?

O que falta na sociedade atual são elites. Elites morais, antes de tudo. Mas elites, por excelência, de famílias, nas quais algo se conserva pela recordação de seus maiores, célebres por sua honestidade, e que servem de modelo.
Ora, a democracia, em concreto, arruinou o prestígio das verdadeiras elites. Se não se trabalhar para sua restauração, nada poderá ser feito.
Com o intuito de favorecer as classes mais modestas da sociedade contemporânea, foi sendo dada a esta uma estrutura gradualmente mais igualitária. Daí resultou o esmagamento progressivo das autênticas elites e o desaparecimento paulatino das estruturas e dos valores aos quais a sociedade devia até então a gênese de suas camadas mais cultas e capazes.
A isso se deve a desorientação e a tendência para o caos, cada vez mais acentuadas nos dias que correm.
A experiência brasileira mostra, por exemplo, toda a extensão do perigo e dos prejuízos a que o minguamento das elites pode conduzir uma nação.
A única solução de fundo
Poder-se-ia argumentar: muitos que vêem, a justo título, na falta de religião a raiz de todo o mal, começariam a praticá-la, o que iria eliminando a corrupção. Na verdade, porém, muitas pessoas que admitem estar a irreligiosidade na origem de todo mal, não desejam absolutamente propagar a religião, de maneira a criar um ambiente de austeridade, de severidade moral. Pois isso as obrigaria a mudar seu modo de viver.
A posição assumida por tais pessoas torna-se mais compreensível, se a compararmos com a atitude de certo tipo de jogadores: não se encontra um único adepto do jogo ilícito que sustente ser este honesto, bem como trazer ele vantagens para sua pátria. Assim, embora tal jogo não convenha ao país, convém a ele, enquanto jogador.

A graça divina

Para debelar tal situação é preciso exercer-se um apostolado de caráter essencialmente religioso, que atraia a graça divina. E, com o auxílio desta, um apostolado que toque as almas, as inteligências, as vontades realmente, de maneira a alcançar verdadeiras conversões. E a partir dessas, alguma coisa pode ser feito. Ora, tais conversões são evidentemente dificílimas de se obter em épocas de imoralidade generalizada, pois as pessoas estão muito afeiçoadas às vantagens que esta lhes traz. E, portanto, estarão pouco propensas a abandonar a má vida.

Apóstolos autênticos

Para se descer aos aspectos mais recônditos do problema com vistas à sua plena solução, é necessária a presença de apóstolos como aqueles recomendados por Dom Chautard em sua famosa obra “A alma de todo apostolado“. Apóstolos dotados de vida interior verdadeira, desejosos do Reino de Deus antes de todas as coisas, e da realização da vontade e dos desígnios divinos, assim na Terra como no Céu. Apóstolos que arrastem pelo exemplo, e movam pela palavra a população, elaborando as leis do Estado conforme as de Deus. E, assim, consigam alterar o procedimento das pessoas. Em suma, surgindo autênticos apóstolos, poderão estes com sua atuação tocar verdadeiramente as almas, as quais, correspondendo à graça, converter-se-ão.
E para se converter, o homem contemporâneo deverá ser dócil à recomendação de Nossa Senhora de Fátima à humanidade, em 1917, a saber: penitência e oração.

Fonte: http://ipco.org.br/home/noticias/o-problema-e-moral-e-nao-economico

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sem João, com Cristo?



Dentre os 17 santos com esse nome, João Batista foi escolhido para ser venerado no dia 24 de junho. É um dos santos mais conhecidos e festejados da Igreja Católica. Conhecido em alguns países como “São João Evangelista” ou simplesmente “São João.” Era primo de Jesus, filho de Santa Isabel e Zacarias. Como profeta, pregou a verdade e anunciou a vinda do Messias.
Depois da Virgem Maria, João é o único santo em que comemoramos a natividade (24 de junho) e o seu passamento para a eternidade (29 de agosto). Esse privilégio singular para ambos, com exceção de Maria Santíssima, faz de João um símbolo, isto é, “epilogo” da antiga aliança e o “prefácio” da nova aliança. João Batista cresceu nos desertos, e como todo profeta, agiu com dureza nas palavras, sempre veemente e intransigente, mas com a doçura de alguém que possui desvelo com o coração do outro.  Foi predecessor de Cristo e ofereceu o batismo aquele que era a causa do batismo. Por isso, ele foi um profeta condecorado, contemplado por poder tocar Naquele que ele pregou durante toda a vida.
Uma vez preparado por Deus, João assume toda a missão que lhe foi confiada desde o ventre materno, ele não fracassou! Deu lugar a Cristo que era maior que ele... "Convém que ele cresça e que eu diminua". (Jo. 3, 30)
Não podemos tratar de São João, sem tratar de Cristo, os dois são inseparáveis desde que foram gerados, pois, a visita de Nossa Senhora a sua prima Isabel já evocava a missão dos dois. Que erro absurdo seria obstarmos um do outro. Por sinal, os historiadores acreditam que João era o homem mais admirado por Jesus Cristo. São João irrompeu a grande novidade, esperada desde o antigo testamento por todos os profetas.
Diante das artimanhas protestantizadas, imbecilizadas e desconexas do mundo afora, devemos crer naquilo que o Nosso Senhor pronunciou: Na verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não apareceu nenhum maior do que João, o Batista. (São Mateus, 11,7-11).
Mesmo que o mundo lance fora a confluência desses dois Rios, é perene o desejo de Deus na vida de São João. O mundo pode criar muitos “Sem João com Cristo”, mas Cristo nunca, nunca ficará sem São João!
Que ele nos ajude a denunciar tudo àquilo que nega e contradiz o reino de Deus em nosso meio. Tornemo-nos a voz dos que não tem voz e nem vez.
Deus abençoe os blogueiros!
Em Cristo, em João, em Maria, e com todos os anjos e Santos de Deus!

Aldenor Soares – Professor de História 
Ex-coordenador Diocesano do TLC.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Coração inquieto



Tenho um amigo que costuma dizer: “pelo dedo se conhece o gigante”. Certamente, essa fala não é dele, mas foi da sua boca que eu a ouvi pela primeira vez. Quero tomar de empréstimo esse ditado para me referir ao começo das Confissões de Santo Agostinho. O bispo de Hipona dá início à sua autobiografia – talvez a primeira da história e criando um novo gênero literário – falando da inquietude do seu coração. Instruído pela sua própria experiência e dotado de um fino senso de observação, Aurélio Agostinho assevera que o coração humano vive inquieto enquanto não encontra o objeto desejado. Viktor Emil Frankl, o renomado psicoterapeuta austríaco, diria que o ser humano não se realiza enquanto não encontra e desenvolve o seu sentido específico.
Em um único parágrafo, Santo Agostinho resume toda a história da humanidade e toda a história das nossas vidas. Todo o drama do gênero humano, do princípio ao fim, do primeiro ao último homem, todo o drama da minha vida, da sua vida, do começo ao ocaso, está contido no parágrafo inaugural das Confissões. Que absurda concisão e penetração de espírito!
É incrível perceber que ainda hoje – principalmente hoje! – muitos homens procuram e não encontram. Não sabendo o que procuram, contentam-se com o que encontram. Não se conhecem e conformam-se em viver, digo, em arrastar-se pela vida, sem uma direção consistente, sem um rumo que lhes preencha o vazio. Tomo a palavra “homens” no sentido de homens e mulheres. Muitos de nós somos desonestos conosco mesmos. Muitos contentam-se com verdades provisórias, em adiar indefinidamente a solução do problema da sua existência.
Conheço pessoas que têm medo de enfrentar-se. Que não suportam a própria companhia. São incapazes de ficar sozinhas com a televisão desligada. Esses indivíduos precisam do barulho como de uma droga. Ligam a televisão ou o rádio desde a hora em que acordam, mesmo sem prestar a atenção neles. Só os desligam quando deitam. Não têm tempo de estar a sós consigo mesmos. O silêncio os atormenta, perturba-os, deixa-os nus. É um silêncio absolutamente vazio, acabrunhante, terrível…
Por que será que tantos se afundam no álcool, nas drogas, no poder, na fama, no sexo ou no culto do corpo? Simplesmente porque são fracos? Creio que não. Não é porque são fracos. É porque desistiram. Porque o seu coração suicidou, deixou de buscar o objeto desejado. Inquieto por natureza, o coração humano – obviamente, não me refiro àquele amontoado de carne de que é constituído o órgão – procura o “diacho” de alguma coisa que não encontra. Enquanto não é encontrado o amor ou a verdade definitivos, o sentido a realizar, o coração humano abraça amores provisórios – muitas vezes destrutivos! –, anestésicos, e verdades paliativas. Surge, muitas vezes, a tentação do desânimo e entra em campo o mecanismo de compensação das frustrações. Em alguns casos, ocorre o desespero. Pode parecer que o verdadeiro amor não vem, que o que pode dar-nos paz, sossego e repouso não existe. A espera é longa…
Calma, leitor! É preciso enfrentar o problema, o drama da nossa existência, e não fugir dele, contentando-nos com uma aspirina. Abraçar uma verdade provisória, casar-se com quem não se ama suficientemente e não nos realiza, é renunciar à felicidade completa.
É mais fácil não ter de pensar muito. Pensar dá trabalho. Às vezes, dói. Fugir dos problemas é mais confortável do que enfrentá-los. Mas a fuga não traz paz. A paz é fruto da verdade. Alguns têm uma idéia tão distorcida de si mesmos que para eles equivalem-se o ser e o não ser. Às vezes as pessoas sabem que existe uma verdade mais profunda sobre si mesmas e sobre seus dramas pessoais, mas a tentação de entregar os pontos, de se deixar levar pela corrente, pela ganância midiática e pela opinião dos covardes é muito mais cômoda.
Por que o nosso mundo é agitado e barulhento? Porque as pessoas que compõem a humanidade não encontraram o objeto desejado. Permanecem em uma busca sôfrega, trôpega, irrequieta e angustiante. A inquietação e a intranquilidade são sintomas de necessidades insatisfeitas. O primeiro passo é não tentar se enganar. É a honestidade para com a nossa consciência, para com os nossos anseios e talentos. É indispensável que não se troquem objetivos mais altos por finalidades mesquinhas.
Não nos contentemos, pois, com a inquietude. Não renunciemos à busca. O objeto dos nossos amores está à nossa espera. Santo Agostinho dá-nos uma boa pista, ele que percorreu esse caminho. A esposa dos nossos sonhos existe. Não nos comprometamos com os amores da estação.

Fonte: http://revistavilanova.com

terça-feira, 4 de junho de 2013

O projeto anti-cristão da agenda gay

A inversão de valores propagada pela mídia revela um projeto incisivo de destruição da moral cristã.


Os noticiários não falam de outra coisa. O liberalismo sexual, no qual se inclui a causa gay, ganhou de vez as manchetes dos principais jornais do país, numa avalanche que parece não ter mais freio. A unanimidade da imprensa em decretar o novo padrão de moralidade é tão eloquente que os mais desavisados sentem-se quase que impelidos a concordar com ele, mesmo que a contragosto. Mas enganam-se aqueles que, ingenuamente, atribuem essas movimentações ao curso natural da história. Trata-se, pelo contrário, de uma agenda compacta, determinada e amplamente financiada, cuja única meta é: minar os fundamentos da sociedade ocidental - o direito romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã - e, em última análise, a natureza humana.
Não é mais segredo para ninguém a hostilidade com que inúmeras nações se referem ao cristianismo. Praticamente todos os programas de governos atuais têm por política o combate aos últimos resquícios de fé católica que ainda restam na sociedade. E essa agenda ideológica encontra eco sobretudo nas Organizações das Nações Unidas, logicamente, a mais interessada na chamada "Nova Ordem Mundial". Essa perseguição sistemática à religião cristã e, mais especificamente à Igreja Católica, se explica pelo fato de ela ser única a levantar a bandeira da lei natural, que é a pedra no sapato dos interesses globalistas.
Em linhas gerais, o direito natural refere-se ao que está inscrito no próprio ser da pessoa. Isso supõe uma ponte de acesso a uma moral humana já pré-estabelecida, com direitos e deveres naturais, conforme a ordem da criação. Não corresponde a um direito revelado, mas a uma verdade originária do ser humano, que através da razão indica aquilo que é justo ou não. Essa defesa do direito natural foi o grande diferencial do cristianismo em relação às demais religiões no início do primeiro milênio, como assinala o Papa Emérito Bento XVI ao Parlamento Alemão, em um dos discursos mais importantes de seu pontificado:
"Ao contrário doutras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado duma revelação. Mas apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objectiva e subjectiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus", (Cf. Bento XVI ao Parlamento Federal da Alemanha em 2011).
A partir do último meio século, ressalta o Santo Padre, o direito natural passou a ser menosprezado, em grande parte, devido à razão positivista. Passou-se a considerá-lo como "uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo". Com efeito, para o teórico positivista Hans Kelsen, a ética deveria ser posta no âmbito do subjetivismo e, por conseguinte, o conceito de justiça.
Criou-se, portanto, uma situação perigosa da qual o próprio Kelsen foi vítima posteriormente, quando perseguido pelo regime nazista por ser judeu. A justiça e a ética caíram no relativismo. Cada um julga-se a si mesmo, julga-se o conhecedor do bem e do mal. E "quando a lei natural e as responsabilidades que implica são negadas, - alerta outra vez Bento XVI em uma catequese sobre Santo Tomás de Aquino - abre-se dramaticamente o caminho para o relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo de Estado no plano político". Como condenar os regimes nazistas, fascistas e comunistas por suas atrocidades se a justiça é um conceito relativo a cada um?
A Igreja condena a perversidade do relativismo justamente por essa falsa sensação de liberdade propagandeada por ele. É a mesma liberdade oferecida pela serpente do Éden à Eva, a falsa beleza que, na verdade, é escravidão. Quando exposta em termos claros e diretos, a lei natural se torna evidente e com ela, todo o arcabouço que a sustenta: o direito romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã. A lei natural encontra apelo no ser humano justamente por ser verdade e estar de acordo com a razão criadora, o Creator Spiritus. O Magistério Católico é, neste sentido, um dos únicos baluartes da justiça e da dignidade da pessoa humana, por falar quase que solitário em defesa da lei natural.
O trabalho da elite globalista - diga-se ONU, imprensa, ONGs esquerdistas e etc - consiste, neste sentido, única e exclusivamente na destruição desses pilares da lei natural. Assim, sepultam-na numa espiral do silêncio, enquanto reproduzem na mídia uma moral totalmente avessa e contrária à família. Desse modo, abrem espaço para a educação das crianças pelo Estado conforme a cartilha ideológica que defendem. É um programa totalmente voltado para a subversão e o controle comportamental que está sendo colocado em prática, descaradamente, por países como Estados Unidos, França, Suécia, Holanda e até mesmo o Brasil.
Neste momento, em que a Igreja vê-se atacada por todos os lados e se joga com a vida humana como se fosse algo qualquer e sem valor, urge o despertar de pessoas santas, imbuídas por uma verdadeira paixão à Verdade. Todas as grandes crises pelas quais a Igreja passou nos últimos séculos foram enfrentadas por santos de grande valor: São Luís Maria Grignion de Montfort, São João Maria Vianney, Santa Catarina de Sena, São Pio X... E essa crise atual requer a mesma fibra, o mesmo destemor e parresia com os quais aqueles santos estavam dispostos a entregar suas vidas, suas fortunas e até mesmo os seus nomes, sem medo da humilhação, firmes na Providência Divina e na certeza de que no alvorecer do novo dia será de Deus a última e definitiva palavra.

Fonte: http://padrepauloricardo.org/


terça-feira, 21 de maio de 2013

Maria, aos olhos de São João



O que São João captou profundamente

Tem-se afirmado com muita freqüência que o Evangelho mariano por excelência é o de São Lucas. Nele, com efeito, encontramos – nos seus dois primeiros capítulos – a maior parte das informações que possuímos sobre a infância e a vida oculta de Cristo. No entanto, parece que não falta razão aos que, sem diminuírem em nada o valor inestimável das passagens marianas de São Lucas, pensam que é o Evangelho de São João o que penetra com maior profundidade no mistério de Maria.
No Evangelho de João, não encontramos nenhuma referência – a não ser muito indireta – às primeiras etapas da vida de Cristo. Após elevar-se, no prólogo, até às alturas da contemplação do mistério de Deus feito homem, João passa logo em seguida a narrar episódios da vida pública do Senhor. Que nos diz, então, acerca de Maria?
Se prestarmos atenção, perceberemos que as contadas referências que João faz à Virgem Santíssima não são, primordialmente, narrações de passagens da “vida de Maria”. João focaliza Maria apenas em alguns momentos de grande significação em que Ela está presente na missão redentora de Jesus. Descreve esses momentos – esses fatos – no estilo sóbrio e objetivo que caracteriza todos os Evangelhos, mas a sua narração, sem dúvida alguma, vai além dos fatos: capta e transmite-nos uma profunda “mensagem”.
Percebe-se, nesses textos do quarto Evangelho, que João compreendeu – e quer fazer entender aos seus leitores – a importância atribuída por Deus à colaboração de Maria nas etapas mais decisivas da missão salvadora de Cristo. São aqueles três anos em que Jesus se volta – e é da maior relevância atentar para isto – de maneira direta e total para os homens necessitados de redenção: anunciando-lhes que se completou o tempo e o Reino de Deus está próximo (Mc 1, 15), atraindo-os para a luz da Verdade e entregando-se na Cruz para o seu resgate.
Duas importantes cenas marianas emolduram, como intensos pontos de luz, o começo e o final da vida pública de Cristo no Evangelho de São João: o milagre das bodas de Caná, e as palavras dirigidas por Jesus a Maria e ao discípulo amado do alto da Cruz.
Antes de focalizarmos com algum vagar essas cenas, podemos adiantar que é a partir do início da vida pública que vemos desvendar-se com a maior clareza uma especial “dimensão” da maternidade de Maria. Até o fim da vida oculta, essa maternidade concentrava-se primordialmente – quase exclusivamente – no Filho, em Jesus. Mal começa a vida pública, porém, contemplamos essa maternidade alargando-se, abrindo-se para os homens que Jesus veio salvar, para nós. Vai-se revelando assim mais plenamente a maternidade espiritual de Nossa Senhora em relação a todos e cada um dos homens (Cf. João Paulo II, Encíclica Redemptoris Mater, n. 21).
As duas passagens-chave de São João, antes citadas, projetam esclarecimentos decisivos sobre esta dimensão da maternidade de Nossa Senhora.
Nas Bodas de Caná
Quando Jesus, juntamente com sua Mãe, foi convidado às bodas de Caná, era ainda muito recente a vocação dos Apóstolos. Já começavam a acompanhar o Mestre e, conforme o costume da época, foram convidados também para o casamento (Cf. Jo 2, 2 e seg.).
A cena é conhecida. Num dado momento da ruidosa festa campesina, fica faltando vinho. Ninguém o percebe. Ninguém, a não ser Maria. Com delicada intuição feminina, pressente que a alegria dos esposos pode ficar toldada por uma imprevidência. Maria faz “seu” o problema, assume-o com sensibilidade materna, com um interesse impregnado de coração. E não hesita em falar confiadamente a Jesus: Não têm vinho.
As suas palavras não são um simples comentário preocupado, mas encerram um discreto pedido. Assim o entende Jesus, quando lhe responde: Que importa isso a mim e a ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora.
A nossa lógica bem-comportada subscreveria as palavras de Jesus. Elas têm a aparência de uma compreensível e amável censura a um pedido saído do coração, mas pouco razoável.
Maria, no entanto, não as entende assim. E Ela é quem tem a sintonia mais perfeita com a alma do Filho. Por isso, não duvida em solicitar imediatamente aos que servem: Fazei tudo o que Ele vos disser. Mostra saber que será escutada, sem que para isso possa ser obstáculo a dificuldade muito ponderável mencionada por Jesus: “Não chegou a minha hora”.
O atendimento de Jesus ao pedido da Mãe não demora. Sob o olhar sorridente de Maria, Cristo manda aos servidores que encham de água seis grandes recipientes de pedra. Ordena-lhes depois que tirem a água já convertida em vinho e a apresentem ao mestre-sala, que não sai do seu assombro por julgar que os donos da festa tinham deixado o bom vinho guardado até agora.
A cena termina com um comentário de João: Este primeiro milagre, fê-lo Jesus em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele (cfr. Jo 2, 1-11).
Falávamos há pouco da “mensagem” encerrada no fato que se acaba de sintetizar. Ela aparece aí de maneira muito clara. É patente que Maria está ativamente presente no começo do ministério público de Cristo, e está presente de uma forma central, não marginal. Prestemos atenção:
* É por intercessão dEla que Cristo adianta misteriosamente a “hora” de iniciar os seus milagres, que serão “sinais” (cfr. Jo 6, 26) da sua divindade e testemunhos visíveis da veracidade da sua doutrina.
* É por intercessão dEla que este primeiro sinal faz com que os discípulos creiam em Jesus.
* Finalmente, manifesta-se nesse instante a disposição de Jesus de acolher todos os pedidos que, mesmo em coisas pouco relevantes – “não têm vinho” –, cheguem a Ele por intermédio da solicitude da Mãe, que se mostra amorosamente atenta às necessidades espirituais e materiais dos homens, seus filhos.
Filhos que confiam
“Maria – comenta a propósito desta cena João Paulo II – põe-se de permeio entre o seu Filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências, dos seus sofrimentos. Põe-se de permeio, isto é, faz de mediadora, não como uma estranha, mas na sua posição de mãe, consciente de que como tal pode – ou antes, “tem o direito de” – fazer presentes ao seu Filho as necessidades dos homens (…) E não é tudo: como Mãe, deseja também que se manifeste o poder messiânico do Filho, ou seja, o seu poder salvífico que se destina a socorrer as desventuras humanas, a libertar o homem do mal que, sob diversas formas e diversas proporções, faz sentir o peso na sua vida”(Encíclica citada).
Contemplando esta passagem do Evangelho, a imaginação evoca algumas das cenas mais simples da piedade popular, que por vezes escandalizam os “sábios”. Como num filme, focalizamos mentalmente os rostos enxutos, requeimados pelo sol do sertão, de um grupo de romeiros que acaba de descer do ônibus na esplanada do Santuário de Aparecida. Os devotos, entrando na basílica, cravam o olhar esperançado no retrato da Mãe, a pequenina imagem de barro escurecido. E, de cada coração, eleva-se uma súplica: pelas necessidades cotidianas, pela saúde, pela volta ao bom caminho do marido, de um filho… “Dai-nos a bênção, ó Mãe querida!” Eles sabem por dentro, têm a certeza, de que – assim como em Caná – a Virgem Santa não deixará de dizer ao Filho: “Não têm…”. E o Filho a atenderá, o Filho lhe “obedecerá”… Não é evidente a sintonia existente entre a sincera devoção popular e o Santo Evangelho?
Em Caná, Cristo disse com atos, mais expressivos do que as palavras, que, na realização da sua obra salvadora em favor dos homens, deseja que ocupe um lugar de destaque a mediação maternal de sua Mãe. Não era necessário que fosse assim, mas Deus quis que assim fosse.
Maria tem verdadeiramente uma função de mediação materna entre Cristo e os homens. Não é certamente uma função autônoma, nem obscurece o fato incontestável de que Jesus Cristo é o único Mediador propriamente dito entre Deus e os homens (cfr. I Tim 2, 5). Mas, mesmo assim, fica em pé a existência de uma autêntica mediação de Maria, subordinada mas entranhadamente unida à mediação de Cristo (Cf. Const. Lumen Gentium, n. 62).
A mediação de Maria está nos desígnios de Deus. Não foi imaginada pela devoção dos cristãos, em épocas mais ou menos tardias. Pelo contrário, foi sendo descoberta pela fé, cada vez com maior profundidade, como um tesouro escondido desde o início, o que é muito diferente.
Bem entendia esta verdade São Bernardo, o “trovador da Virgem”, quando pregava que Maria é “o aqueduto que, recebendo a plenitude da própria fonte do coração do Pai, no-la faz acessível… Com o mais íntimo, pois, da nossa alma, com todos os afetos do nosso coração e com todos os sentimentos e desejos da nossa vontade, veneremos Maria, porque esta é a vontade daquele Senhor que quis que tudo recebêssemos por Maria” (Sermo in Nativitate B. V. Mariae, nn. 4 e 7).
Antes de concluirmos o comentário às bodas de Caná, detenhamo-nos por uns instantes a olhar outras riquezas dessa cena.
Tem sido observado, e com razão, que nessa passagem de Caná se encontram as únicas palavras dirigidas por Maria aos homens que o Evangelho registra: Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2, 5). Aí está o sentido da mediação de Maria: levar as almas para Cristo, mover os corações dos homens a aderir à vontade de Cristo e a “fazê-la” de fato: “tudo o que Ele vos disser”.
Ao mesmo tempo, aí se compreende qual é o eixo da verdadeira devoção a Nossa Senhora, e o teste da sua autenticidade. A autêntica devoção a Maria sempre conduz a Cristo. É função do amor maternal de Maria “gerar” constantemente “irmãos” de seu Filho, que se disponham a viver até às últimas conseqüências a verdade e a vida que Jesus lhes oferece.
Por isso, a devoção a Maria Santíssima não só não afasta ou desvia as almas da união com Cristo pela fé e pelo amor – e nisso reside a essência da vida cristã –, mas a facilita sobremaneira, tornando-a mais acessível e mais suave, e também mais eficaz. “A Jesus, sempre se vai e se «volta» por Maria” (São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 495).
“A nossa alma – diz São Luís Maria Grignion de Montfort – só encontrará Deus em Maria… Só Deus habita nela e, longe de reter uma alma para si, Ela – muito pelo contrário – a impele para Deus e a une a Ele” (Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, cap. I, art. 1).
Junto da Cruz
Caná é o início da vida pública de Cristo. O sacrifício da Cruz é o seu fecho e a sua culminação. Procuremos agora aproximar-nos do coração de Maria e tentemos captar o que Maria guardava no coração naquela hora em que a salvação da humanidade se consumava por meio do sacrifício redentor de Jesus Cristo.
São João descreve a presença de Maria ao pé da Cruz, junto das santas mulheres, com uma palavra cheia de têmpera: stabat. Literalmente, significa “estar firme, de pé”. Mas o termo indica muito mais do que um simples modo de permanecer. A expressão original empregada pelo Evangelho sugere um conteúdo moral, isto é, que Maria acompanhava o sofrimento do Filho com fortaleza de alma; e que, no seu coração, não só havia inteireza, mas adesão.
Nessa “hora” definitiva, em que o Filho dá a vida para a salvação de muitos (Mt 20, 28), a atitude espiritual de Maria é exatamente a mesma que no dia da Anunciação: fiat, “faça-se”. Adesão incondicional, plena, à vontade de Deus, e concretamente ao plano salvífico que Cristo está realizando no mundo, plano no qual Ela foi chamada a colaborar da forma mais estreita.
Podemos dizer que o fiat, a união com a vontade de Deus é a alma de Maria. Aquilo que faz dela a Mãe, no sentido mais profundo, não é apenas nem primariamente o fato de ter gerado fisicamente Jesus, mas de se ter unido perfeitamente à vontade de Deus em cada um dos instantes da vida e da missão do Filho.
Lembremo-nos de que, certo dia, quando uma mulher da multidão louvou em voz alta o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram, Jesus lhe respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11, 27-28). Teria com isso desviado de Maria o louvor espontâneo daquela mulher? Não, sem dúvida, pois porventura não foi a Virgem quem melhor ouviu e cumpriu a palavra de Deus? Com essas palavras, Cristo mostrava de fato qual é a mais profunda razão para louvá-la. Análogo sentido se deve ver no comentário, frio e distante na aparência, feito por Jesus certa vez em que lhe advertiram que sua Mãe acabava de chegar: Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe (Mc 3, 35).
Ao pé da Cruz, a adesão de Maria à vontade divina atinge o seu cume. A Virgem Santa conhecia bem – como todo o judeu piedoso – as profecias que, de um fundo de séculos, prenunciavam o Messias como “Servo sofredor”, que seria levado à morte como manso cordeiro conduzido ao sacrifício: pelas suas chagas, todos nós seríamos curados (Cf. Is 53, 1-7). Por isso, ao dizer “faça-se” ao Anjo, Ela aceitara o destino do seu Filho. Quando o apresentou no Templo a Deus Pai, o seu gesto foi uma antecipação do oferecimento definitivo que iria fazer ao pé da Cruz, aceitando a Paixão e a Morte de seu Filho pela nossa salvação; mais ainda, oferecendo voluntariamente – com a alma transpassada de dor e numa completa generosidade – o sacrifício de Jesus por nós, Maria – por amor a Deus e por amor aos homens necessitados de redenção – aceitou morrer de dor, no íntimo da sua alma, juntamente com Cristo. Uniu-se assim ao seu sacrifício redentor e assumiu-o como próprio. Por isso é chamada Co-redentora.
Foi na Cruz que Cristo, dando a vida, mereceu para nós a vida divina da graça do Espírito Santo. O seu holocausto de Amor, por ter um valor infinito – divino –, é uma inesgotável fonte de méritos em favor dos homens. Pois bem, o Salvador quis associar tão intimamente a sua Mãe bendita ao sacrifício da Redenção que a Igreja pode afirmar que Maria mereceu com “mérito de conveniência” – como se diz na linguagem teológica – todas as graças que Jesus nos mereceu por justiça na Cruz (Cf. São Pio X, Encíclica Ad diem illum, 02.02.1904). Ela é, também por este título, a “Mãe da divina graça”. A vida sobrenatural, que brota copiosamente da Cruz, também é, de alguma maneira, vida dEla, vida que recebemos por Ela: isso a torna mais profundamente a nossa Mãe.
Convém lembrar ainda que Jesus Cristo, com os seus padecimentos, pagou – expiou, satisfez – pelos nossos pecados: Fostes resgatados – escreve São Pedro – (…) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem mancha (I Pedr. 1, 18-19). A Virgem Imaculada, unindo-se totalmente aos sofrimentos do Filho – com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cfr. Fil 2, 5) – aceitou, com amor imenso, pagar também Ela com a sua própria dor pelos nossos pecados. Junto da Cruz, entregou a sua alma, fundida com o sacrifício de Jesus, pela nossa salvação (Cf. Const. Lumen Gentium, n. 58).
A dilacerante agonia do seu coração, junto do Crucificado, foi então como que um novo parto – desta vez com dor –, através do qual Maria nos deu à luz espiritualmente. Não se trata de uma frase poética, mas de uma inefável realidade: todos e cada um de nós nascemos de Maria naquele momento. Aí, perto da árvore da Cruz, Ela se tornou plenamente a “nova Eva”, a nova e verdadeira “mãe dos viventes”, como gostava de repetir a piedade mariana dos primeiros séculos .
Eis o teu filho
Logo após as palavras pronunciadas por Cristo na Cruz – “eis a tua Mãe”, “eis o teu filho” –, conta o Evangelho que desta hora em diante, o discípulo a levou para sua casa (Jo 19, 27).
Esse “discípulo” – o discípulo – representava todos os discípulos: os que na altura seguiam Jesus e todos os homens chamados depois a segui-Lo, fazendo parte do Povo de Deus que é a Igreja.
O fato de o discípulo ter assumido ao pé da letra a “filiação” a Maria, “levando-a para sua casa”, reflete bem a intenção de Cristo – que João compreendeu – de que a Igreja, a que São Paulo chama o Corpo de Cristo (Col 1, 18), tivesse a sua existência inseparavelmente unida à Mãe de Jesus. Ela é a Mãe da Cabeça deste Corpo – de Cristo –, e é a Mãe dos membros deste Corpo, que somos nós. É a Mãe da Igreja, do “Cristo total”, como gostava de dizer Santo Agostinho.
Na mente de Deus, portanto, a Igreja é concebida também como uma família, como um lar que tem uma Mãe. No centro dessa família, pulsa o Coração da Virgem e nela irradia o aconchego da sua maternidade.
É muitíssimo significativo que a Igreja tenha iniciado o seu caminho no dia de Pentecostes, quando os discípulos e as santas mulheres estavam reunidos – em união de corações e de preces – com Maria, a Mãe de Jesus (At 1, 14). São Lucas, o evangelista que melhor captou o papel de Maria no começo da vida do Redentor, na infância, é o mesmo que nos Atos dos Apóstolos sublinha a presença central de Nossa Senhora no começo da vida da Igreja, mostrando que a Igreja recebeu o Espírito Santo – a sua alma divina – estando aglutinada como uma família em volta da Virgem Santíssima.
É assim que Deus nos quer: unidos, formando um só coração e uma só alma, com Maria, a Mãe de Jesus (At. 1,14). Assim experimentaremos sempre aquela segurança absoluta de que falava São Bernardo: “Não te extraviarás se a segues; não desesperarás se a chamas; não te perderás se nEla pensas. Se Ela segurar as tuas mãos, não cairás; Se te proteger, não terás nada a temer; não te cansarás, se Ela for o teu guia; chegarás felizmente ao porto, se Ela te amparar” (Homilias sobre a Virgem Mãe, II).

(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: Maria, a Mãe de Jesus, Quadrante 1987)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Igreja Católica e Conversão


Por Dale Ahlquist

Tradução: Pedro Erik Carneiro

Tradução do original The Catholic Church and Conversion [Lecture 49], disponível no site Chesterton.org

Pode ser surpresa para alguns saber que Chesterton foi criado como Unitário. A descoberta da “ortodoxia” Cristã (como descrito no seu livro “Ortodoxia”) o levou para ser adepto da Igreja Anglicana em 1901, mais tarde ele diria que isso foi apenas sua conversão incompleta ao Catolicismo. Antes de se tornar Católico, Chesterton reconheceu o fato de que ele estava conduzindo muitas pessoas para a Igreja Católica sem que ele mesmo tivesse ingressado. Mas ele continuava conduzindo-as. Apenas em 1922, com a idade de 48 anos, Chesterton foi recebido dentro da Igreja Católica Romana. Isto foi um choque para muitos. Muitos observadores ficaram surpresos pois achavam que ele já era Católico, uma vez que tinha defendido a Igreja durante muitos anos. Mas muitos outros que o conheciam mais de perto, amigos e oponentes, achavam que isso nunca iria acontecer. George Bernard Shaw atirou uma carta dizendo: “Gilbert, isto foi longe demais”.

Cinco anos depois de fazer parte da Igreja, Chesterton escreveu The Catholic Church and Conversion (A Igreja Católica e Conversão). Ele disse que embora todos os caminhos levem a Roma, cada peregrino é tentado a dizer que todos os caminhos são como o dele. “A Igreja é uma casa com cem portas; e dois homens não entram exatamente pelo mesmo ângulo.” Mas ele não precisava ter se preocupado em fazer uma declaração tão pessoal. Quase todo convertido reconhecerá os três estágios para conversão que Chesterton descreve: O primeiro estágio é Dedicar Atenção à Igreja. O segundo é Descobrir a Igreja. E o terceiro é…Fugir da Igreja.

O convertido entra no primeiro estágio quase sem perceber quando ele decide ser justo com a Igreja Católica. Ele não pensa que a religião de Roma é verdadeira, mas, pela primeira vez, ele também não acha que as acusações contra a Igreja sejam verdadeiras. Este é um passo importante que o leva para o longo e agradável segundo estágio, no qual é completamente fascinante aprender o que a Igreja Católica realmente ensina. Chesterton disse que esta é a parte mais agradável da trajetória, “mais fácil que entrar na Igreja e muito mais fácil que tentar viver uma vida Católica. É como descobrir um novo continente cheio de flores estranhas e animais fantásticos, mundo selvagem, mas hospitaleiro.” Mas então a partir daí o convertido de repente, em estado de choque, se dá conta que ele não pode ficar mais imparcial em relação à Igreja Católica.

É impossível ser justo com a Igreja Católica. No momento em que o homem cessa de atacá-la, ele sente uma atração em direção a ela. No momento em que ele cessa de gritar, ele começa a ouvi-la com prazer. No momento em que ele tenta ser justo ele começa a admirá-la.

Mas então chega o estágio final: medo. “Uma coisa”, diz Chesterton, “é concluir que o Catolicismo é bom e outra é concluir que é o certo. Uma coisa é concluir que é certo, outra é concluir que é sempre certo”. Neste estágio delicado, Chesterton observa que não são mais os inimigos da Igreja que não permitem a entrada do convertido, mas “apenas a palavra de um Católico pode mantê-lo fora do Catolicismo. Uma palavra estúpida de um membro da Igreja faz mais estrago que cem palavras estúpidas de pessoas de fora da Igreja.” Ele aponta para um problema que ainda assola a Igreja: Católicos que não apenas fazem um péssimo trabalho em apresentar a fé Católica, mas também afastam pessoas que estão querendo entrar na Igreja.

Todo Católico deveria ler este livro de Chesterton. Pois além de ficar mais preparado para lidar com convertidos, eles apreciarão fortemente a fé na qual eles desejam entrar. Especialmente a percepção que a Igreja, como disse Chesterton, “é maior de dentro que ela é de fora.”

Toda era tenta criar uma nova religião, algo que se adapte melhor com o momento, mas novas religiões são apenas adaptadas para aquilo que é novo. E o que é novo fica velho logo. Chesterton argumenta que a Igreja Católica tem todo o frescor de uma nova religião, mas ela é também rica como uma religião velha. É uma religião que amarra os homens a moralidade mesmo quando eles não estão com vontade de usar a moral. A Igreja algumas vezes tem de ir na contramão do mundo. Ela pregou reconciliação social para facções raivosas e agressivas que preferiam destruir uns às outras. Ela pregou caridade para velhos pagãos que não acreditam nisto, assim como ela prega hoje castidade para novos pagãos que não acreditam nisto.

Nós não precisamos de uma religião que está certa quando nós estamos certos. O que nós precisamos é de uma religião que está certa quando nós estamos errados.

Chesterton já tinha provado que era um defensor da tradição contra modismos, mas ele deixou claro para céticos e detratores que uma das razões para se tornar Católico era que a Igreja Católica “é a única coisa que salva um homem da escravidão degradante de ser uma criança na idade dele.” Ele descobriu que tudo o mais era mais estreito e mais restritivo. Na Igreja, ele viu liberdade. Liberdade alucinante, ele disse. Se isto não é surpresa o bastante, deve ser sóbrio se não estonteante para qualquer leitor honesto de Chesterton considerar que este gigante intelectual encontrou um lar para sua mente na Igreja Católica. Não é um lar meramente para descansar, mas um lugar de grande excitação e atividade. Isto está revelado em um das frases mais desafiadoras que Chesterton já disse: “Se tornar um Católico não é deixar de pensar, mas aprender a pensar.”


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Condições da oração: III – Detestar o pecado



Por: Francisco Faus 

«Orar é falar com Deus», é um diálogo com Deus. É uma verdade básica que procuramos lembrar nas nossas meditações. Mas, para a oração ser um bom diálogo com Deus – já o sabemos -, tem que ser uma conversa de amor, cheia de sinceridade e confiança. Na realidade, toda a oração cristã deveria ser sempre uma procura muito sincera do Amor de Deus, uma “troca de amor” entre Ele e nós.
Já comentamos que, justamente por isso, uma condição da oração dos filhos de Deus é a “sinceridade” (ver “Condições da oração: II – Sinceridade”): abrimo-nos com Deus, e – como diz São Josemaria – procuramos contar-lhe «confiadamente tudo o que nos palpita na cabeça e no coração: alegrias, tristezas, esperanças, dissabores…».
Ora – pense bem nisso – como é possível “contar-lhe coisas de amor”, se não nos importamos com aquilo que, na nossa vida, ofende a Deus, nem que seja de leve? Seria como dizer-lhe com a boca: «Senhor, eu te amo muito» e, ao mesmo tempo, continuar friamente a espetar-lhe os pregos e a coroa de espinhos das nossas faltas e pecados.
Quanta razão não tem São Josemaria Escrivá quando diz que, para fazer a oração dos filhos de Deus, «temos que esforçar-nos para que não haja em nós a menor sombra de duplicidade. O primeiro requisito para desterrar este mal, que o Senhor condena duramente [ver Mt 7,21-23], é procurar comportar-nos com a disposição clara, habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir, no coração e na cabeça, horror ao pecado grave. E, numa atitude profundamente arraigada, temos que detestar também o pecado venial deliberado, essas claudicações que, embora não nos privem da graça divina, debilitam os canais por onde ela nos chega».
Todos nós temos um monte de pecados veniais (é só deles que vamos falar nesta meditação), que já aderiram à nossa alma como musgo, como bolor, como plantas parasitas que roubam a “seiva” da alma, a enfraquecem e, sobretudo, ferem nela o amor a Deus. Temos…, mas ficamos sem fazer nada ou quase nada para vencê-los.
Pecados veniais? A lista seria interminável. Bastem uns poucos exemplos corriqueiros: irritações e impaciências em casa e no trabalho, que se repetem de modo habitual; palavras e olhares que magoam; muitas concessões à preguiça, que nos levam a fazer mal o trabalho, a adiar os deveres que custam, a dedicar menos tempo que o devido a Deus e às pessoas; caprichos da gula que não se justificam; curiosidade mórbida, que nos põe em perigo de faltar à castidade, etc.
Tentamos justificar-nos dizendo que “ninguém é perfeito”, o que é uma grande verdade, mas é uma verdade que interpretamos mal, pois confundimos as fraquezas e limitações inevitáveis (que sempre existirão, até nos santos), com as faltas que são evitáveis e que deveriam ser evitadas, verdadeiros “pecados” veniais que, se quiséssemos e pedíssemos ajuda a Deus, poderíamos evitar.
Jesus nos lembra repetidas vezes que o primeiro mandamento é «amar a Deus com todo o coração, com toda alma, com toda a mente e com todas as forças» (Mc 12,30), e por isso, no livro do Apocalipse, revela a São João a “mágoa” que lhe produzem os cristãos que se conformam com um amor medíocre, morno, contaminado pelo pecado venial consentido: «Tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor… Não achei as tuas obras perfeitas diante de meu Deus» (Apoc 2,4 e 3,2).
Convençamo-nos de que «os pecados veniais fazem muito mal à alma» (Caminho, n. 329). Não nos esqueçamos nunca de que não é compatível falar carinhosamente com Deus, enquanto “guardamos” tranquilamente, sem reagir, dentro da alma, hábitos e pecados veniais que são “parentes” daqueles cuspes, tapas, chicotadas e espinhos que caíram sobre Cristo na Paixão, quando sofria pelos nossos pecados (ver 1 Cor 15,3).
Então, o que devemos fazer? Dizer a Deus, sim, “eu te amo”, mas colocar ao mesmo tempo toda a força do nosso amor – robustecido pela graça de Deus – numa luta diária séria por vencer esses hábitos e pecados.
Meios para isso? Vários deles iremos comentá-los em outras ocasiões. Mas, para já, podemos enunciar os principais: confissão frequente, com verdadeira dor dos pecados e com o desejo de nos corrigirmos e reparar; exame de consciência todas as noites; pedir ao confessor conselhos e leituras que nos orientem nas nossas lutas concretas, e sermos mais mortificados (este será o próximo tema destas nossas reflexões).
Talvez você pergunte: -Empregando esses meios, será fácil vencer o pecado venial? – Será possível, ainda que não fácil, sobretudo se esses pecados são hábitos que já têm raízes fortes. Mas será possível mesmo, porque Deus está conosco e quer “lutar conosco”, como dizia Pascal. Pede-nos, porém, a humildade de não desanimar e sempre recomeçar a luta, mesmo que tornemos a cair nas mesmas faltas por fraqueza (o desânimo, aí, seria orgulho, vaidade de querer ver-nos logo perfeitos); pede-nos reforçar a oração e freqüentar mais a comunhão para obtermos mais graça, e, especialmente, pede-nos levantar-nos logo das quedas.
Por ser muito animador, quero terminar citando um trecho do livro Caminho: «Sei que te portaste bem…, apesar de teres caído tão fundo. – Sei que te portaste bem, porque te humilhaste, porque retificaste, porque te encheste de esperança e a esperança te trouxe de novo ao Amor. – Não faças essa cara boba de surpresa; de fato, te portaste bem! Já te levantaste do chão … Agora, ao trabalho!» (n. 264).


Acesse os textos anteriores: